A chave de Mapkalo´r

Cassandra nem queria acreditar que o homem que amava estava disposto a roubar-lhe a chave de Mapkalo´r e ficar com o tesouro só para si.

Durante meses tinham preparado aquela expedição no conforto da casa que ambos tinham idealizado e transformado num perfeito ninho de amor. Tinham sonhado com o tesouro e o que fariam assim que o tivessem nas mãos. Tinham imaginado o que sentiriam quando o encontrassem, imaginado a textura e o peso das moedas e o brilho do ouro. Sabiam que o tesouro ficava algures numa gruta junto ao adormecido vulcão de Bach, nas ilhas de Tylon, mas para conseguir abrir a arca teriam de encontrar a chave. Após uma extensa pesquisa, para a qual perderam muitas noites de sono, concluíram que a chave estaria nas altas montanhas de Neplim. Enquanto percorriam milhares de quilómetros até lá, a expectativa era grande. Estavam ali com um objectivo comum, um sonho que ambos partilhavam.

  Nas montanhas predominavam árvores altas e vegetação densa, onde os raios de sol mal conseguiam penetrar. Por todo o lado se ouviam ruídos estranhos e ela muitas vezes se tinha assustado com o chiar da madeira das árvores que se agitavam ao vento e com os gritos irritantes dos macacos.

   Tinham caminhado durante dias e dias até conseguir entrar na gruta húmida e escura de Vasaktul, onde calculavam que estivesse a chave. Nunca tinham imaginado o que lhes esperava lá dentro, os vários perigos que teriam de enfrentar. Primeiro foram os morcegos, cujas fezes infestavam o ar tornando-o insuportável. De seguida tiveram de fugir de serpentes perigosas, mas o pior foram as pequenas criaturas de um só olho e que possuíam um veneno altamente mortal. Eram criaturas assustadoras, pequenas, com um olho vermelho no meio da cara e dois pequenos dentes finos e afiados que pendiam para baixo, como os dentes de uma morça. Nunca acreditaram que pudessem mesmo existir. Acreditavam que não passava de uma história para afastar os intrusos e proteger o objecto precioso que ali se encontrava. Mas as criaturas estavam mesmo ali e eles tinham lhes escapado por pouco. Até ao fim da gruta tiveram de passar por labirintos de corredores estreitos, marcando com tinta branca os locais por onde tinham passado. Era fácil perder-se naquele local tão escuro e eles tencionavam voltar para casa. De preferência ricos.

    Ao fim de algum tempo avistaram uma luz intensa, vinda de uma cúpula esculpida na rocha. Ouvia-se o pingar da água que caía das rochas fazendo-os adivinhar que estariam por debaixo do rio Shilom.

   Ao aproximarem-se descobriram que a luz provinha da chave que eles tanto procuravam. Era tão intensa como a luz do sol e tiveram de proteger os olhos com as mãos para conseguir olhar para ela. Era tão magnifica, mais maravilhosa do que tinham visto em velhos desenhos. Felizes abraçaram-se e beijaram-se de forma tão apaixonada que o desejo depressa se apoderou deles. Mas aquilo teria de ficar para mais tarde, tinham de tirar a chave que parecia estar unida à rocha e sair dali o quanto antes. Usaram martelos e picaretas para a retirar. Tinha sido mais fácil do que parecera no início. Correram para fora da caverna, desejosos de ver novamente a luz do dia. Mais uma vez tiveram de fintar as criaturas horrorosas, mas desta vez elas pareciam assustadas a quando da sua passagem.

  Hora mais tarde, finalmente ar livre. Puro e fresco, reconfortante. Ela olhou para a chave e inspeccionou-a à luz do dia. Deixava-a cheia de felicidade tê-la nas suas mãos. Felicidade que acabou assim que Jonathan lhe arrancou a chave das mãos e lhe apontou a pistola. A desilusão foi maior que o medo. Ele tinha se servido dela para conseguir encontrar o tesouro. Ela era inteligente e com um talento impressionante para resolver mistérios e ele aproveitara-se. Tinha-a enganado. Ela não conseguia acreditar que estivesse assim tão cego pelo tesouro. Não podia acreditar que não a amasse e que estava disposto a fugir e deixá-la ali sozinha, no meio do nada. Revoltada correu para ele, dando-lhe um encontrão. Ele não caiu, mas cambaleou e ai ela aproveitou para lhe tirar a chave e começar a correr a toda a velocidade. Agora ele corria atrás dela, que segurava na mão trémula a chave de ouro e cristais brilhantes e luzidios. Ao sol brilhavam ainda mais, mas ela não podia dar-se ao luxo de parar para os admirar. Jonathan ganhava terreno e sempre tinha sido mais ágil e veloz que ela. Não seria difícil para ele alcançá-la. Cassandra gritou de fúria quando tropeçou na raiz sobressaída de uma árvore e caiu ao chão molhado pela chuva. A chave saltou das suas mãos indo cair numa poça de água enlameada, não muito longe dela. Incapaz de se levantar devido à forte dor que sentia no tornozelo rastejou até à poça, mas antes que conseguisse chegar viu uma mão entrar na água suja. Ergueu o olhar para um homem alto que vestia uma capa preta que lhe chegava aos pés. Tinha um grande chapéu na cabeça coberta por longos e encaracolados cabelos negros como a noite. Os seus olhos eram de uma cor âmbar luminosa e uma cicatriz atravessava-lhe a face esquerda. E apesar de estar a sorrir, um sorriso cínico e arrogante, tinha um ar feroz. Impotente Cassandra viu-o apanhar a chave de dentro da poça e admirá-la contra a um raio de sol. Quando o fez a luz da chave pareceu reflectir-se nos seus olhos frios, tornando-os admiravelmente atraentes. O homem sorriu para ela, tocou na aba do chapéu em forma de despedida e desapareceu como por magia. Num piscar de olhos tinha desaparecido diante dela, sem que conseguisse explicar como.

   Jonathan chegou junto dela e ajudou-a a erguer-se. Ela olhou para o seu marido, trocando com ele um olhar espantado e confuso. Quem era aquele homem e de onde tinha aparecido. Mais importante ainda, para onde tinha ido, levando consigo a chave que com tanto esforço eles tinham conseguido resgatar das profundezas da caverna. Agora como a iriam recuperar? Mais uma vez tinham de voltar a unir esforços, apesar de para ela ser difícil voltar a confiar no marido. Como podia confiar em alguém que a atraiçoara de uma forma tão descarada? Mas ela queria a chave e ele também. Não faziam ideia de como ia ser depois, mas naquele momento tinham de se unir. Afinal de contas os dois tinham agora outro objectivo que era enfrentar um inimigo comum.

~fim~

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Escrevi este “conto” ai há uns 4 ou 5 anos para um passatempo de uma editora. Tinha de ser um conto fantástico e eu já nem me lembro o que era o prémio, mas deve ter-me agradado uma vez que me dei ao trabalho de participar. 

Como é óbvio não ganhei nada e isto para aqui ficou junto às não sei quantas histórias que comecei a escrever. Eu escrevia muito no passado. Não escrevia nada de jeito mas gostava de o fazer, de criar um enredo, de criar diálogos, romances… ❤ Houve um tempo em que até pensei em enviar um manuscrito. Verdadinha. Mas não o fiz…que vergonha seria. lol. 

Portanto hoje lá decidi tirar o “conto” da gaveta e partilhar. Só porque me apeteceu. 

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2 comentários (+add yours?)

  1. Maria Marques
    Nov 10, 2015 @ 21:52:37

    Tão 007, ou Indiana Jones….

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    Responder

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